Cases

CYTEI: como desenhei um SaaS de energia solar para cinco perfis

O processo por trás das telas, da arquitetura de informação de 2020 à releitura da plataforma para desktop e celular.

Papel
UX/UI Designer Júnior
Contrato
PJ, 3 meses (2020)
Modelo
SaaS B2B e B2C
Escopo
5 perfis, 6+ módulos
Entregas
Arquitetura, wireframes e alta fidelidade no Figma
Dashboard de gestão na releitura. Os dados das telas deste case são fictícios.

Em 2020, quem trabalhava com energia solar no Brasil resolvia cada parte do negócio num lugar diferente. A usina controlava as cobranças em planilha, o investidor recebia os números por e-mail e o consumidor que queria economizar na conta de luz não sabia nem por onde começar.

A CYTEI nasceu para juntar essas pontas numa plataforma só. Eu entrei no projeto como UX/UI Designer, num contrato de três meses, com a missão de desenhar a experiência de cinco perfis de usuário que compartilham o mesmo produto e quase nunca querem ver as mesmas coisas.

Este case mostra como eu cheguei às telas: as perguntas que fiz antes de abrir o Figma, a arquitetura que sustentou tudo, as regras que guiaram cada decisão visual e o que aconteceu quando voltei ao projeto anos depois para redesenhá-lo.

O ponto de partida#

O desafio tinha dois lados que puxavam em direções opostas. Usinas e investidores precisavam de muita informação na tela: faturamento, inadimplência, fluxo de caixa, contratos com dezenas de variáveis. O consumidor final precisava do contrário, uma tela limpa que respondesse se valia a pena aderir e quanto ele ia economizar.

Fazer duas plataformas estava fora de questão. O produto precisava de uma estrutura única capaz de mudar de densidade conforme quem estivesse logado.

Cinco perfis, cinco perguntas#

Antes de qualquer wireframe, listei os perfis e a pergunta principal que cada um traz quando abre a plataforma. Essa lista virou o filtro de todas as decisões seguintes: se um elemento não ajudava a responder a pergunta daquele perfil, ele saía da tela dele.

  1. Usinas e usineiros: quanto eu faturei, quem está me devendo e quanto ainda tenho de energia para vender?
  2. Investidores: onde está o meu dinheiro, com que taxa e com que risco?
  3. Consumidores: quanto eu economizo e o que preciso assinar?
  4. Especialistas e EPCistas: quem precisa de mão de obra e quando eu estou disponível?
  5. Integradoras: como provo que sou uma empresa confiável e encontro clientes?

Os dois públicos ficaram claros nessa lista. Usinas e investidores formam o lado B2B, que lê tabelas e compara períodos. Consumidores formam o lado B2C, que precisa de poucas decisões, bem explicadas.

A arquitetura veio antes das telas#

Com os perfis definidos, montei o mapa do produto. Cada módulo funciona como uma unidade independente, e o menu lateral mostra só os módulos que fazem sentido para o perfil da sessão. Um consumidor nunca vê a área de contabilidade; um investidor não esbarra no cadastro técnico da usina.

Essa decisão resolveu dois problemas ao mesmo tempo. Cada perfil enxerga um produto menor e mais fácil de entender, e a empresa ganhou espaço para criar módulos novos sem redesenhar a navegação.

  • DashboardVisão geral e gráficos de janeiro a dezembro
  • Gestão e financeiroPagamentos, cobranças, receitas, despesas, notas fiscais, contabilidade e integração de TI
  • UsinasCadastro de nova usina e dados técnicos (subgrupo, carga, produção em MWp)
  • NegociaçãoBuscar consumidores e sócios investidores, contratar especialistas e EPC
  • ContratosContratos firmados, condições de financiamento e termos padrão da plataforma
  • QualificaçãoDados gerais, minhas especialidades e meus imóveis
  • AcessoUsuários, permissões e setores
  • ContaLogin, notificações integradas a WhatsApp e e-mail, edição de perfil

O onboarding seguiu a mesma lógica. Pessoa jurídica e pessoa física passam por qualificações diferentes, e cada etapa pede só o que aquele perfil precisa informar.

As regras da interface#

Com a estrutura pronta, defini quatro regras visuais para manter as telas coerentes enquanto o número de módulos crescia:

  1. Cor só para estado. Verde para pago e regular, vermelho para atraso e erro, amarelo para o que espera alguém. O resto da interface fica neutro, para que um atraso salte aos olhos sem esforço.
  2. Navegação na lateral. O menu vertical libera a largura da tela para tabelas financeiras e gráficos, que são o centro do trabalho de quem opera uma usina.
  3. Ação na linha do dado. Enviar contrato, cobrar ou baixar o comprovante acontece na própria linha da tabela. O usuário age sem abrir outra tela para isso.
  4. Número sempre com contexto. Um valor aparece junto da comparação com o mês anterior, da meta ou do ticket médio, para que o dado já chegue como uma informação útil para decidir.

A releitura#

Em 2020 entreguei os protótipos de alta fidelidade no Figma, em tema claro. Em 2026 voltei ao projeto para testar se a arquitetura daquela época aguentaria o mercado de hoje, que mudou bastante com o Marco Legal da geração distribuída (Lei 14.300/2022).

Escrevi uma direção de arte curta para a releitura: tema escuro de alto contraste, violeta reservado para o que é clicável, verde para estado positivo, vermelho só para erro e bordas finas no lugar de sombras. Usei o Google Stitch para gerar as telas a partir da arquitetura original e trabalhei em cima do resultado, mantendo as quatro regras de 2020. A plataforma ganhou dois módulos que não existiam: consórcio de geração compartilhada e leitura automática de contas de luz.

2020Dashboard entregue no Figma.
ReleituraA mesma estrutura, em tema escuro.

A comparação mostra o que eu queria verificar: a lateral, os indicadores no topo e a tabela com ação na linha continuam no mesmo lugar. A estrutura de 2020 recebeu os módulos novos sem precisar mudar.

Módulo a módulo#

A seguir, as telas da releitura e as decisões de design por trás de cada uma. Toque em qualquer tela para ampliar e navegar entre elas.

Dashboard: a saúde da usina em uma tela#

O gestor abre o dashboard (a tela do início deste case) para saber se o mês está indo bem. Por isso os quatro indicadores do topo (geração, faturamento, inadimplência e consumidores ativos) trazem cada um a comparação com o período anterior e uma barra fina que mostra a distância até a meta.

Abaixo do gráfico de receitas contra despesas ficam três números que resumem a operação: margem líquida, tarifa média e a divisão entre clientes empresa e pessoa física. Na tabela de pagamentos, a ação de cada linha depende do status. Quem pagou tem o comprovante; quem atrasou tem o botão de cobrar.

Cobrança: o atraso aparece primeiro#

Cobrança e faturas: o card de vencidos e a linha do inadimplente usam a única cor de alerta da tela.

O ciclo de cobrança se lê da esquerda para a direita nos indicadores: o total emitido, o que já entrou, o que ainda vai vencer e o que venceu. Só o último card tem borda vermelha, porque é o único que pede ação.

As abas mostram a contagem de cada grupo (todos, em dia, inadimplentes e em negociação), então o gestor sabe o tamanho do problema antes de clicar. A linha de um inadimplente com mais de quinze dias ganha um fundo avermelhado e ações de alerta. Para atrasos em volume, a cobrança em lote fica no topo, como ação principal da página.

Financeiro: o que aconteceu e o que vem#

Financeiro: o seletor de competência no topo muda todos os números da página de uma vez.

O financeiro cruza o histórico de receitas com a projeção dos próximos ciclos. No gráfico, os meses realizados têm cor cheia e os projetados ficam num tom apagado, com um asterisco. A diferença entre fato e estimativa fica visível sem legenda extra.

Ao lado do gráfico, a composição dos custos de operação aparece numa barra única dividida por categoria, com o percentual e o valor de cada uma. Na lista de lançamentos, receitas vêm com sinal de mais em verde e despesas com sinal de menos, e o vencimento atrasado muda de cor.

Consumidores: a jornada como coluna#

Consumidores: a coluna "etapa da jornada" diz onde cada cliente parou, e o funil no rodapé mostra a carteira inteira.

A usina acompanha cada consumidor do primeiro contato até a assinatura. Em vez de espalhar essa informação por várias telas, criei uma coluna chamada etapa da jornada, com estados como lead qualificado, minuta em análise jurídica e contrato vigente.

No rodapé, o funil de conversão resume a mesma informação em quatro números: contatos, qualificados, em proposta e em assinatura. O botão de enviar termos em lote liga esta tela ao módulo de contratos.

Qualificação: a conta de luz vira dado#

Qualificação: os critérios de enquadramento ficam visíveis na própria tela, junto da capacidade que a usina ainda tem livre.

Em 2020 a qualificação era um formulário: o usuário digitava os dados da empresa, o CNPJ, a produção instalada e a localização. Na releitura, o ponto de partida virou a própria conta de luz. A usina envia o PDF ou a foto, a plataforma extrai o histórico de consumo e o lead entra na tabela com score de crédito e um parecer técnico, como apto para consórcio, apto para autoconsumo ou incompatível.

Os critérios de enquadramento ficam explicados no rodapé da tela, e o card de alocação mostra quanto da usina ainda está livre. Quando a fila de leads passa da capacidade disponível, a ação sugerida é priorizar por margem.

Negociações: quem oferece e quem procura#

Negociações: abas separam investidores, usinas, especialistas e modalidades de contrato.

Esta área junta perfis com interesses complementares. O investidor procura usinas para financiar; a usina procura capital e mão de obra; o especialista procura trabalho. As abas separam cada conversa, e a tabela de investidores mantém numa linha só as variáveis que definem o risco: teto de financiamento, taxa, deságio e status da auditoria.

A agenda dos especialistas virou um termômetro: uma barra dividida entre atuando, disponível, reservado e inativo. Quem planeja uma obra vê em segundos quantos técnicos estão livres na região, e cada especialista vem com avaliação por estrelas dada por outras usinas.

Contratos: o vencimento avisa antes#

Contratos: os alertas do rodapé avisam o reajuste e a troca de titularidade antes do prazo.

A CYTEI trabalha com seis modalidades de contrato: venda, aluguel, comodato, consórcio, cooperativa e autoconsumo. Os filtros em chips, com a contagem de cada modalidade, deixam o gestor recortar a carteira com um clique.

A tabela segue a ordem em que um advogado lê um contrato: objeto, partes, modalidade, vigência, valor, reajuste e status. No rodapé, os alertas de cláusulas críticas avisam o que vence no ciclo, como um reajuste pelo IPCA daqui a trinta dias, e já trazem o botão para emitir a notificação.

Consórcio: dividir a energia entre cotistas#

Consórcio: a barra de distribuição e a cota de cada cotista usam a mesma linguagem visual.

O consórcio é um dos módulos novos da releitura. A usina divide a energia gerada entre empresas e pessoas físicas, e cada cotista recebe uma fatia da produção. A tela responde primeiro se a usina está toda comprometida e, logo abaixo, como a potência se divide entre varejo, serviços, residencial e reserva técnica.

A relação com a concessionária ganhou um painel próprio, com a lista de rateio vigente, a janela para enviar alterações e as pendências, como uma troca de titularidade que ainda espera protocolo. Na tabela, a cota de cada cotista aparece em percentual, em kWp e numa barra curta, para comparar a carteira de relance.

Cadastro da usina: o progresso à vista#

Cadastro da usina: a faixa de conformidade diz quanto falta e qual é a pendência.

Cadastrar uma usina exige dezenas de campos técnicos e documentos da concessionária. Para o formulário não parecer interminável, dividi o conteúdo em cards numerados e coloquei no topo uma faixa de conformidade que diz quanto do cadastro está pronto e qual é a única pendência.

A localização, que em 2020 já tinha um mapa para validar a área atendida, ganhou o desenho da planta sobre o terreno, com latitude, longitude e área arrendada logo abaixo.

No celular#

A versão para celular partiu de uma pergunta diferente: o que o gestor resolve longe do computador? A resposta definiu a barra inferior, com quatro destinos: dashboard, cobrança, consórcio e leads. O resto da plataforma continua no desktop.

  • DashboardA geração do dia primeiro
  • CobrançaA tabela vira cards
  • ConsórcioCada cotista em três números
  • LeadsA câmera lê a conta de luz

As tabelas do desktop viraram cards, cada um com uma faixa de cor na lateral que repete a regra do status. As ações também seguem o status: o consumidor inadimplente tem os botões de WhatsApp e de reemitir o boleto, o que pagou tem o comprovante e o que ainda vai vencer tem um lembrete.

A qualificação foi a tela que mais mudou. No celular, o upload de PDF dá lugar ao botão de fotografar a conta de luz, e o gestor qualifica um cliente durante a visita, com a conta na mão.

O que eu levo deste projeto#

A lição mais valiosa da CYTEI foi começar pelos perfis e pela arquitetura. Em 2020, isso permitiu entregar em três meses um produto com cinco jornadas sem que uma atrapalhasse a outra. Seis anos depois, a mesma estrutura recebeu um módulo de consórcio, leitura automática de contas e uma versão para celular sem mudar a navegação.

As regras visuais também envelheceram bem. Valeram tanto para o tema claro de 2020 quanto para o escuro da releitura, e se adaptaram à tela do celular sem exceções.

Se o seu produto também precisa atender públicos com necessidades diferentes na mesma plataforma, é esse tipo de problema que eu gosto de resolver.

Erick Nobre

Quem desenhou

Erick Nobre

Designer de Produto Sênior e UX Engineer em Piracicaba, SP. Há 7 anos desenho produtos digitais complexos, de plataformas SaaS a sistemas corporativos, e entrego a interface em código.

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